6. 59ª Reunião Anual da SBPC: Como usar a terra e recuperar áreas degradadas na Amazônia?
Especialistas apresentam técnicas de monitoramento de impactos ambientais decorrentes da ocupação de áreas florestais
Iara Ferraz escreve de Belém para o “JC e-mail”:
Em concorrido simpósio na manhã desta segunda-feira, coordenado pelo pesquisador do Inpa Flavio Jesus Luizão, foi apresentado o Projeto Redes LBA (Low Biosphere Atmosphere), desenvolvido a partir de Manaus, que consiste num sistema de instalação de torres em áreas florestais para o monitoramento e entendimento dos mecanismos que governam as mudanças climáticas.
Este sistema permite compreender a influência da região amazônica em outras regiões.
A captação e o registro das emissões de isopreno na atmosfera e os maiores ou menores índices pluviométricos evidenciam que a floresta produz chuva. Os registros LBA vêm demonstrando, por sua vez, que o desmatamento provoca mudança drástica na atmosfera.
Durante 11 anos, a pesquisa do LBA em Alta Floresta (MT) vem evidenciando a quantidade imensa de partículas em suspensão, decorrentes da intensificação das queimadas na porção norte do estado de Mato Grosso, sendo possível acompanhar a dinâmica do carbono e os ciclos biogeoquímicos na atmosfera.
Em outro estudo que vem sendo realizado em Rondônia (dados de 1988, 1992 e 1996), as causas do desmatamento identificadas foram a abertura de pastagens, a extração madeireira, a agricultura em pequena escala e, agora, em grande escala (sobretudo soja), provocando compactação do solo e perda de nutrientes.
É possível ainda identificar vários níveis de impacto na paisagem através do corte seletivo, da fragmentação florestal e da manutenção da floresta em pé.
Um projeto do Inpa com o Smithsonian Institution vem avaliando a perda de nutrientes do solo pela queima de biomassa na Amazônia, onde os fatores de degradação tornam o solo improdutivo, como por exemplo, as pastagens invadidas por espécies secundárias no sistema de pouso. Um fator complicador é a demora para recuperar o ambiente.
As duas exposições seguintes trataram das alternativas para apressar a recomposição ambiental. A professora Ima Célia Vieira, bióloga e diretora do Museu Goeldi, apresentou um panorama da biodiversidade da região amazônica, em que 700 mil km2 de ecossistemas nativos estão degradados.
O próprio conceito deve ser entendido em sua dupla vertente: degradação ambiental (de solos, o processo de sucessão biológica com invasão de ervas daninhas) e degradação da capacidade produtiva (pastagens após 8 ou 10 anos, por exemplo).
Assim, a recuperação ambiental trata de processos bioquímicos enquanto a recuperação da capacidade produtiva lida com novos usos da terra, de modo mais produtivo que o anterior, onde a questão que se coloca é a da possibilidade ou não de a área voltar a ter as mesmas condições ou processos anteriores. Estes não são conceitos fáceis, segundo a pesquisadora, sendo possível uma confusão com o conceito de reflorestamento e seu uso indevido.
O Centro de Endemismo Belém e a primeira lista de espécies amazônicas ameaçadas são os mais recentes estudos concluídos pelo MPEG. O Centro de Endemismo Belém compreende uma região pouco conhecida do ponto de vista biológico, onde "se trava uma luta inglória entre a busca do conhecimento e a lista das espécies ameaçadas" (de acordo com a lista do MPEG, são 176, das quais 30 no Centro de Endemismo Belém).
Considerando que Pará abriga 32,6% do rebanho bovino nacional, a pesquisadora chamou a atenção para a questão da segurança alimentar e as relações entre agricultura e conservação. O estado vem suprindo de alimentos (carne bovina, ovos e frango) os estados vizinhos do Amazonas e do Amapá, apesar de 80% deste estado estarem preservados.
O plantio de espécies exóticas face à "febre da política de biocombustíveis" e seqüestro de carbono tendem a aumentar, verificando-se o avanço da cana de açúcar (o leste do está mapeado para plantio), do girassol e dendê (no sul do estado).
Deste modo, duas questões cruciais se colocam do ponto de vista biológico: até que ponto as perdas de biodiversidade em florestas primárias estariam sendo compensadas com plantio de florestas secundárias e espécies exóticas? Qual a flora e fauna futuras da região amazônica?
Por outro lado, a intensificação de manejo de espécies – o açaí foi citado como exemplo – podem ter conseqüências drásticas. Na várzea, o aumento de áreas cultivadas tem levado à penalização de outros usos da terra, à supressão de outras espécies, a endemias e a conflitos de populações. É necessário atentar para as respostas bióticas e físicas à intensificação do manejo do açaí.
A mitigação dos efeitos das mudanças climáticas poderá também ajudar na conservação da biodiversidade da floresta. A pesquisadora concluiu que "a floresta primária é insubstituível e evitar o desmatamento seria a melhor solução", valorizando os pequenos produtores que mantêm áreas florestadas. A análise da viabilidade do impacto de cada agrossistema e da tecnologia a ele aplicada deve utilizar indicadores sociais, culturais e ambientais e este se constitui em um desafio à comunidade científica.
Segundo o pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, Osvaldo Kato, há fortes evidências de que a agricultura convencional é insustentável. Ao apresentar os resultados de seus estudos sobre o cultivo do maracujá no nordeste paraense, em sistemas de agricultura familiar com intensificação do uso da terra, utilização intensiva de equipamentos e defensivos (agrotóxicos, pesticidas), ele apontou os problemas ambientais que esse tipo de sistema pode provocar.
A dependência do uso de fertilizantes dá-se devido à redução de matéria orgânica no solo e a grande quantidade de espécies invasoras leva à utilização de herbicidas, ocasionando um acelerado processo de degradação biológica.
Apresentou o conceito de cultivo mínimo como alternativa: a diversificação do sistema de uso, a manutenção da cobertura do solo (não revolver a área com maquinário), o aumento de matéria orgânica – enfim, tratar o solo como organismo vivo e não apenas como substrato.
Como conseqüência dos desacertos da agricultura convencional, a agroecologia consiste na reorientação das estratégias produtivas, que consideram as questões da segurança alimentar, a inclusão social e a qualidade no entorno das áreas cultivadas. Ressaltou a importância da contribuição de outras disciplinas (ecologia, antropologia, etnoecologia, sociologia e ciência agrícola básica) ao lado do conhecimento dos agricultores e de sua participação efetiva na construção de novos modelos.
Os resultados de estudos recentes na Embrapa Oriental apontam para a importância das capoeiras (vegetação secundária), que resultam do sistema mais praticado pelos agricultores familiares (derruba e queima) – a redução do período de pousio (descanso da área de cultivo) diminui a quantidade de biomassa produzida e de matéria orgânica.
A capoeira (de dez anos) desempenha um papel importante como fonte de acumulação de biomassa, de estoque de nutrientes, promove bombeamento de nutrientes de camadas mais profundas, supressão de espécies invasoras, controle da erosão, suprimento de lenha, regulação climática e a preservação da biodiversidade. Verificam-se no estado do Pará algumas experiências de manejo de capoeiras com meliponicultura e cultivo de bacuri (mercado crescente).
"Produzir sem queimar" – esta é uma alternativa possível para os agricultores familiares, com o uso de técnicas manuais ou desenvolvimento de equipamentos especiais para o enriquecimento da capoeira, com o plantio de leguminosas (que promovem a fixação biológica de nitrogênio), o aumento da biomassa e de nutrientes. Sem queima verifica-se o aumento de carbono e a manutenção da cobertura do solo.
O uso de espécies acumuladoras e cicladoras de fósforo (imbaúba e guandu, por exemplo, em Igarapé Açu/PA) em culturas anuais como plantas de cobertura (adubação verde) mantém a biomassa.
Os sistemas agroflorestais (SAF) apresentam a diversificação de espécies necessária e devem contar com o conhecimento dos agricultores; citou experiências bem sucedidas de SAF orgânicos, com redução de áreas queimadas e conversão total para espécies orgânicas num período de sete anos.
Ao finalizar, o pesquisador da Embrapa ressaltou a importância da seleção das espécies nos SAFs, assim como as condições de acesso, processamento e transporte, que podem ser problemáticas no caso de produtos altamente perecíveis, como o açaí, por exemplo.